1
Na praia a onda trouxe, em silêncio e solidão,
Um corpo que o mar guardou sem revelar razão.
A Leirosa amanheceu num murmúrio de aflição,
Com o vento a sussurrar segredos da escuridão.
2
As areias ficaram mudas ao ver tal ocorrência,
Um mistério que o oceano soltou após longa ausência.
O tempo deixou no corpo marcas da sua violência,
E a maré trouxe à costa um eco de resistência.
3
Chegaram homens do mar, de olhar firme e pesado,
Sentindo o peso da vida num instante silenciado.
Sabiam, pelo estado, que o tempo tinha passado,
Que aquela alma vagava há muito sem ter chegado.
4
A Judiciária tomou conta do enigma a desvendar,
Procurando pistas na espuma, no vento e no lugar.
Há histórias que o oceano tenta sempre ocultar,
Mas que um dia, por destino, decide revelar.
5
O povo da Leirosa parou, em respeito profundo,
Pois o mar, tantas vezes amigo, hoje trouxe outro mundo.
Um silêncio caiu pesado, espesso e vagabundo,
Como se o tempo chorasse o fim de mais um segundo.
6
Não se sabe quem era, nem de onde partiu,
Se um sonho desfeito ou alguém que fugiu.
Só se sabe que o mar, no seu canto sombrio,
Devolveu à praia o que um dia engoliu.
7
E enquanto a onda leva a dor que ali ficou,
A areia guarda a memória do que a manhã revelou.
Que encontre paz a alma que o destino ali deixou,
E que a verdade surja no rasto que o mar desenhou.
